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Vasculhar Lendas

Juntos vamos mergulhar nas maravilhosas lendas, para já de Portugal, por isso... Era Uma Vez ...

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18
Nov22

Erva Fadada

Bri Atano

Cá nos encontramos de novo, para falar de mais uma lenda, desta vez não só portuguesa. Esta lenda abrange a Península Ibérica e também os nossos amigos de França. Criemos então, um ambiente medieval e vamos em busca da nossa Erva Fadada.

 

Era uma vez, em pleno século XVII (17), numa pequena cidade em França, um jovem que se interessava por herbologia e com os benefícios que as plantas podiam ter para o Homem. Curioso e aventureiro, certo dia ouvira que algures no campo existia uma erva que lhe chamavam vários nomes desde «herbe de la détourne» (erva do desvio) até «Herbe de Fourvoiement» (erva das encruzilhadas). Como nada o parecia assustar, o nosso jovem pegou no seu odre e fez-se à estrada, ou melhor, ao caminho. Após vaguear viu a planta, apanhou umas quantas folhas e resolveu regressar a casa para a estudar. Passaram-se horas e o caminho, embora familiar, não parecia levar a lado nenhum, estava sempre a regressar ao local onde tinha apanhado a erva fadada. Recordando-se do que ouvira sobre bruxedos e feitiçaria, o jovem resolveu virar os bolsos do avesso, para assim espantar o que quer que o tivesse a assombrar. Em poucos minutos, regressou ao caminho que daria para sua casa.

erva fadada.jpg

Enquanto em França, o povo a temia por o seu dom de fazer esquecer, na Península Ibéria o problema já era outro, o famoso Encanto, a Tentação. Lembram-se de Dona Ausenda, a quem Almeida Garret faz referência no seu «Romanceiro», 

"À porta de Dona Ausenda está uma erva fadada; mulher que ponha mão nela logo se sente pejada.",

Também Teófilo Braga falou desta planta numa das suas pesquisas por foclores e lendas

"Hay una yerba en el campo que se llama la borraja; toda mujer que la pisa luego se siente prenada."

Mas nem tudo é sobre gravidez, viajemos então para o Século XIX (19).

Era uma vez, numa pequena cidade portuguesa, onde a tentação cada vez espreitava mais pelos cantos e a prostituição, também essa, estava a aumentar. Vários estudiosos reuniram-se numa mesa com o intuito de dar nomes aos novos eventos que estavam a acontecer, especialmente os filhos de prostitutas ou como na altura eram frequentemente chamadas "mulheres perdidas" ou "ervoeiras", associando assim as "ervas" às relações ilícitas. Neste sentido, e estando todos de acordo, os filhos bastardos passaram a ser: «filho das ervas» ou ainda «filho das tristes ervas», «filho das malvas» e «filho das ervas e neto das águas correntes», que, por sinal, se coligam tematicamente com o mito da erva fadada.

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O conceito de «erva fadada» cumpria uma função social de procurar desculpar ou aligeirar o estigma social atribuído às mulheres que engravidassem em contexto de adultério praticado por mulheres solteiras, atribuindo uma causa sobrenatural e incontrolável àquela gravidez indesejada, pois como aconteceu com Dona Ausenda que se vê grávida, por artes que lhe são completamente desconhecidas e estão fora do seu domínio e controlo, a não ser por aquela linda flor que se encontra à porta de casa dela.

 Existem ainda alusões a esta crença popular, em cântigas da região do Porto, Portugal:

"Meu amor não vás a Avintes/

Nem para lá tomes o jeito/

Olha que as moças de lá/

Trazem a semente do feito"

oleo-de-borragem.jpg

Regressando ao dia de hoje,  a erva fadada é também conhecida como Borragem, uma flor medicinal e comestível.

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