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Vasculhar Lendas

Juntos vamos mergulhar nas maravilhosas lendas, para já de Portugal, por isso... Era Uma Vez ...

Juntos vamos mergulhar nas maravilhosas lendas, para já de Portugal, por isso... Era Uma Vez ...

Vasculhar Lendas

05
Jan26

Lenda da Bruxa Befana

Bri Atano

Caros leitores, hoje irei trazer uma lenda sobre uma bruxa que muitos não devem conhecer, uma lenda de suas origens pagãs (L'Epifania), uma bruxa que ainda nos dias de hoje é celebrada, especialmente em Itália, uma bruxa que tenta até ao dia de hoje procura por aquela criança que por orgulho, por falta de tempo, por algo, não chegou a tempo de ver e entregar a sua prenda a um bebé muito conhecido por todos nós. Uma verdadeira mistura de religiões. Meus caros, mergulhem então na lenda da Bruxa Befana.

 

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Era uma vez, há muitos, muitos anos atrás, numa Terra de seu nome Belém, uma gentil senhora de seu nome Befana, que vivia na sua humilde casa, quando três senhores lhe perguntaram o caminho para irem visitar um menino que havia nascido em Belém. A senhora não sabia o caminho, mas mesmo assim, convidou os três visitante, que eram nada mais, nada menos, que os três Reis Magos, a passar a noite em sua casa. 

Quando os raios de sol apareceram, como sinal de agradecimento, os três visitante, covidaram Befana a os seguir e também ela poder visitar o Menino, proposta essa que ela recusou porque tinha muito trabalho para fazer. Arrependida, ainda tentou seguir pelo mesmo caminho que os Três Reis Magos tomaram, mas nunca os conseguiu encontrar.

Reza a lenda, que desde esse dia, na noite entre 5 (cinco) e 6 (seis) de Janeiro, ela pára em todas as casas que encontra pelo caminho, dando doces e prendas às crianças na esperança que uma delas seja o Menino Jesus. 

 

"La Befana vien di notte

Con le scarpe tutte rotte

Col vestito alla romana

Viva, Viva La Befana!'

 

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05
Nov25

Lenda das Fogaceiras

Bri Atano

Caros leitores, vamos hoje embarcar numa lenda que teve a sua origem nas terras de Santa Maria.

Vila da Feira ou Santa Maria da Feira, é uma cidade portuguesa localizada na sub-região da Área Metropolitana do Porto, pertencendo assim à região Norte e ao distrito de Aveiro. Com uma área urbana de 23,52 km2, conta com 19.792 habitantes (dados de 2021). É a sede do município de Santa Maria da Feira, este subdividido em 21 freguesias.

A lenda que hoje vos trago é apenas celebrada em Janeiro, mas a sua história remonta a dois meses antes, vamos então sem mais delongas, à Lenda da Fogaceiras!

 

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Era uma vez, nos primórdios dos anos 1500, numa altura de frio e chuvas, uma aldeia de seu nome Feira que se vira assolada por uma terrível e mortal epidemia, a Peste! 

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Aquela povoação assustada, sem saber o que fazer, fez então uma promessa a São Sebastião, protector contra a peste. Essa promessa era nada mais nada menos que uma oferenda que lhe seria feita anualmente de pão doce, a tradicional fogaça, em forma de torre do castelo da vila.

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Começaram então as novenas, as rezas que a população fazia a São Sebastião e os preparativos tradicionais, onde as famílias se juntavam para iniciar a confecção das fogaças. 

Era 20 de Janeiro do ano seguinte, quando a peste cessou, a promessa havia sido cumprida e nascia assim a Festa das Fogaceiras, considerada a mais antiga procissão votiva de Portugal.

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Por volta de 1520, o Juiz e Vereadores da Câmara da Vila da Feira, em conjunto com o pároco local, instituíram oficialmente a promessa e o voto a São Sebastião — determinando que todos os anos, a 20 de janeiro, se ofereceria uma fogaça (pão votivo) ao santo, em agradecimento pela cessação da peste.

A oficialização foi feita em nome do povo da vila, tornando o voto comunitário e perpétuo — o que transformou uma promessa popular espontânea num ritual cívico e religioso oficial.

O registo mais antigo conhecido encontra-se em documentos camarários do início do século XVI, citados por investigadores como Padre Manuel Alves e António Oliveira de Castro, onde se lê que a Câmara “fez voto a São Sebastião de lhe oferecer, em cada ano, fogaceiras em memória da saúde restituída”.

Ainda hoje podemos encontrar as quatro torres, nas fogaças de Santa Maria da Feira.

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30
Out25

Festa da Cabra e do Canhoto

Bri Atano

Caros leitores, vamos hoje viajar até Cidões, uma aldeia no Norte de Portugal Continental, pertencente ao Município de Vinhais e ao Distrito de Bragança. Vinhais conta com uma área total de 694,76 km2 e 7768 (sete mil setecentos e sessenta e oito) habitantes, já a localidade da nossa lenda situa-se na Freguesia de Vilar de Peregrino e ocupa uma área total de 12,54 km2 e 20 residentes. Mas não é por ser pequena que está esquecida, muito pelo contrário, os filhos da terra, regressam todos os anos, para realizar a festa da Cabra e do Canhoto, uma comemoração Celta, que a cada ano fica mais conhecida, uma espécie de Caretos mas do All-Hallows Eve (Dia de Todos os Santos), sem mais delongas vamos não à lenda, mas à tradição!

 

Era uma vez, situada no norte de um país, que hoje chamamos de Portugal, uma aldeia com as suas raízes celtas, que todos os anos comemorava o Samhain, uma comemoração pagã que finalizava o ano, que no caso era a troca de estação do dia e do calor (31 de Outubro) e o começo de um ano novo, a troca para a estação da noite e do frio (1 de Novembro). 

Para prevenir a vinda de espíritos malignos para destruir colheitas e espalhar o medo, resolveram criar um ritual para os espantar e apenas atrair os espíritos bons, em Cidões, assim como nas celebrações Celtas, a vinda dos mortos está relacionada com o ciclo morto da natureza, onde tudo está mais fragilizado, mais sensível, como hoje ouvimos existe apenas um véu a separar. 

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Decididos a matar o diabo "Canhoto", o Druida e as suas deusas fazem o esconjuro e preparam a queimada, acendendo a estrela, o pentagrama Celta (não confundir com o satânico), invocando prosperidade, fertilidade e sorte para a "estação escura" o Inverno que se avizinha e às 23:00h decidem queimar o "cabrão" ou "bode gigante", que foi empurrado pelas deusas para a fogueira do Fogo Sagrado e deleitar-se com a cabra machorra. E é quando esta queima do bode e o repasto de cabra machorra, um animal que nunca deu descendência em toda a sua vida, que desperta a ira do diabo que virá em cima de um carro de bois, com os rapazes da terra, que por sua vez roubam as varandas, viram carroças do avesso e ainda atropelam raparigas, rapazes que estão a ser controlados pelo diabo. 

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Começa então uma luta feroz entre o Diabo e o Druida, este último consegue expulsar o Diabo da aldeia, permitindo-o apenas a voltar no dia 31 de Outubro do ano seguinte, assim toda a aldeia e todos os presentes estão protegidos contra todos os males, inveja, azares e má sorte! 

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Esta tradição tem vindo a aumentar de ano para ano, sendo agora esperados perto de duas mil pessoas, e de facto existem tradições que merecem a pena existir e a Festa da Cabra e do Canhoto, é uma delas!

 

25
Out25

Lenda do Galo de Barcelos

Bri Atano

Caros leitores, vamos hoje visitar uma cidade portuguesa, situada na zona Norte de Portugal e pertencente ao Distrito de Braga, que tem uma área total de 378,9 km2,com uma população de 20 846 habitantes, bem-vindos à cidade de Barcelos, caracterizada por o seu galo colorido, que todos conhecem mas que poucos sabem a lenda que este icónico galo esconde, sem mais delongas, vamos à Lenda do Galo de Barcelos.

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Era uma vez, numa terra de seu nome Barcelos, uma aldeia pacata que se viu alarmada quando um crime fora cometido e o seu autor ainda não tivesse sido levado à justiça.  Certo dia, apareceu um galego que, por ser estranho naquela aldeia, foi imediatamente preso pelas autoridades, embora o suspeito fizesse juramentos de inocência, sendo um deles que estaria de passagem em peregrinação a Santiago Compostela em promessa divina, de nada adiantou. 

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Condenado à pena de morte, na forca, o homem como último pedido, solicitou que o levassem à presença do juíz que o tivera condenado. Concederam-lhe autorização e levaram-no à residência do magistrado, que estava num banquete com alguns amigos. Em casa do juiz, que estava a preparar-se para trinchar um galo assado, o condenado ajoelhou-se, insistiu na sua inocência e suplicou para não ser enforcado. 

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Como o juiz não se deixou comover com as suas palavras, o peregrino pediu ajuda a Santiago, de quem era devoto, e disse:

" É tão certo eu estar inocente como o galo que tem aí na mesa cantar antes do dia acabar!"

O juiz empurrou o prato para o lado e ignorou o apelo, enviou o galego de novo para a forca. Quando o peregrino estava prestes a ser enforcado, o galo assado ergueu-se na mesa e cantou. Compreendendo o seu erro, o juiz correu para a forca, ficaram atónitos quando viram que o peregrino estava vivo, com uma corda à volta do pescoço. O homem foi imediatamente solto e mandado em paz na sua promessa divina. Passado algum tempo foi feito o Galo de Barcelos, em homenagem a esse milagre.

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Uns anos mais tarde, o galego voltou a Barcelos, esculpiu o conhecido Cruzeiro do Senhor do Galo, em louvor a Virgem Maria e a Santiago Maior, esse monumento encontra-se hoje no Museu Arqueológico de Barcelos.

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Quanto à veracidade do que consta nesta lenda, existem milagres e nós podemos ou não escolher acreditar neles, por isso esta deixo à escolha do leitor, mas vale relembrar que ela tem imensas variantes, achei esta a mais interessante.

Vamos então aos factos, a lenda teve a sua origem em meados dos séculos XIV (14) e XV (15), mas o galo colorido apenas foi construído uns séculos mais tarde por volta do século XX (20), em homenagem à lenda do milagre do galo. Por volta desses século, Barcelos estava sobre o domínio dos Condes de Barcelos, sendo Dom Afonso, filho de Dom João de Portugal, o mais conhecido, que se viria a torna o 1º Duque de Bragança. Por essa altura, o magistrado loval actuava por ordem do conde e não do rei, como não existem registos acessíveis sobre o Juíz de Fora ou Juíz Ordinário, apenas estes serão acessíveis presencialmente, pois são documentos antigos, não conseguirei, para já, fornecer um nome, apenas que pode ter sido uma ordem dada por Dom Afonso, 8º Conde de Barcelos e 1º Duque de Brangança.

 

05
Ago25

Lenda das Feiticeiras Raianas

Bri Atano

Quantas vezes nos deparamos com histórias populares, que nos chegam por familiares, por vizinhos, por amigos, por alguém que ouviu de alguém ... duas coisas elas todas têm em comum, justificam tradições e têm origens ancestrais. 

 

Nesta lenda, iremos então viajar até  ao munícipio espanhol de Arbo, uma região que faz fronteira com a vila minhota de Melgaço, duas povoações que sempre cultivaram entre si fantásticas histórias misticas e sobrenaturais, com princesas, almas penadas, tragédia, amores proíbidos, criaturas lendárias, mas maioritáriamente, "meigas" como actualmente ainda chamam às bruxas, feiticeiras, magas e curandeiras, na localidade minhota e no idioma galego. Feitas as apresentações e sem mais demora, vamos então à lenda das Feiticeiras Raianas!

 

 

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Há muitos, muitos, anos atrás, na Idade Média, era necessário fazer a travessia do rio e esta, por vezes, muito arriscada devido ao mau tempo, enchentes inesperadas, rápidos perigosos ou até mesmo a inexperiência da própria pessoa, quer fosse a nado ou num pequeno barco utilizado na região com o nome de batela, por tal infortúnio dos que lá perdiam a vida ou viam a sua sorte a andar ao revês, culpavam as Feticeiras Raianas, pois eram elas que protegiam o territória e impunham a sua vontade sobre os homens das duas localidade.

Semelhantes às sereias, que apesar de terem aparência humana, não possuiam uma alma e quando confrontadas atacavam ou em troca de bens e favores, que podiam custar a vida, realizavam desejos aqueles que a elas recorriam. As feiticeiras, com aparência humana, belissímas, sedutoras, mas de essência sobrenatural, levavam os pescadores e barqueiros que por elas se apaixonavam ou as provocavam, para o fundo do rio. Outros, diziam que o seu poder era tão grande e poderoso, que bastava os jovens rapazes e homens abrir a boca, para a sua alma ser possuída e devorada. Amedrontados, decidiram que então a única forma de atravessar o rio era colocando um seixo ou uma moeda na boca, de modo a não a abrir na presença das míticas criaturas.

 

"Aquelles arriscados que se atrevían a cruzar a nado tiñan que meter na boca un coio que lles impedise falar por se una feiticeira lles preguntaba algo durante a travesía"

 

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Uma das versões que sobreviveu ao tempo foi registadas pelo português Leite de Vasconcelos em 1931, durante as suas viagens pelo Norte de Portugal.

Que acham, uma lenda ou apenas infortúnio daqueles que ousaram atravessar o rio?

Acham que sobreviveu alguém para contar a história ou apenas foi uma forma de justificar algo mais?

Seja como for, esta foi mais uma lenda que sobreviveu ao tempo e que merece a nossa atenção, pois sejam verdade ou nao, é sempre algo que nos faz viajar um pouco e compreender o que pensavam os nossos antepassados.

 

 

27
Mai24

Dama Pé de Cabra - Versão I - Senhor de Biscaia

Bri Atano

Caros leitores, trago hoje, a primeira parte da lenda da Dama Pé-de-Cabra, que era transmitida oralmente desde o Século XI e registada pela primeira vez no Século XIV no Livro de Linhagens do Conde D. Pedro. Foi também compilada por Alexandre Herculano, 1851, no seu livro "Lendas e Narrativas".  Sem mais demoras, vamos então à nossa lenda:

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Foto de autor desconhecido do site Ochus Bochus

Era uma vez,  na província de Biscaia, um nobre senhor de seu nome D. Diogo Lopes, senhorio dessa província, que caçava por as suas terras, quando foi surpreendido por uma donzela que cantava sentada numa pedra. Espantado por tamanha beleza, ofereceu o seu coração, as suas terras e os seus vassalos, em troca da sua mão, no entanto, a dama recusou as oferendas e impôs-lhe uma única condição para esse matrimónio acontecer, nunca mais se benzer. D. Diogo, aceitou sem nenhuma hesitação. Nessa noite, no seu castelo, quando o nobre senhor se apercebeu que a sua dama, por quem estava perdido de amores, tinha os pés forcados como os de uma cabra. Todavia, esse promenor não impediu o casal de viver em paz e união durante muitos e muitos anos, sendo fruto desse amor D. Inigo Guerra e Dona Sol.

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Pintura Paula Rego

Certo dia, após uma caçada, durante um grandioso jantar com toda a família reunida, D. Diogo premiou Silvano, o seu alaunt/alão - cão dado como extinto nos dias de hoje, que por vezes era usado como presa para a caça de animais de grande porte, mas que contribuiu para o desenvolvimento de cãos como alaunt Mastiff que conhecemos hoje - com um grande osso, quando este foi atacado pela podenga preta de sua mulher que o matou para se apoderar do pedaço de javali. Espantado com tal violência e meio embriagado, D. Diogo, benzeu-se e exclamou que tal coisa só podia ser "coisa de Belzebu". A dama deu um grito, como se estivesse a ser queimada, começou a elevar-se no ar, os seus olhos tornaram-se brilhantes, a sua pele negra, os cabelos eriçados e as unhas em garra. Enraivecida, pegou na sua filha e começou a aproximar-se de D. Inigo, para também o agarrar, quando D. Diogo exclamou "Jesus, santo nome de Deus!", benzeu-se, e mais uma vez a Dama Pé-de-Cabra soltou um grito de dor, elevou-se mais alto no ar e saiu com a sua filha chorosa pela janela, nunca mais sendo vistas.

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Ilustração Filipe Soares

O nobre senhor, tornara-se carrancudo e triste, tendo sido excomungado pelo seu enlace com a misteriosa dama. Recebeu como petinência a missão de guerrear os mouros por tantos anos quanto os que vivera em pecado. Partiu então para a guerra onde anos mais tarde, ficou cativo em Toledo. 

D. Inigo, sem saber como resgatar o pai, resolveu ir à procura de sua mãe, que segundo uns e outros diziam, ou se havia tornado uma fada ou uma alma penada, histórias essas que eram conhecidas há mais de cem anos.

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Foto Michael Oppermann

[Reza a lenda, que um ilustre conde, Argimiro o Negro, em tempos possuía aquelas terras, havia prometido no leito de morte do seu pai, nunca matar uma fera com crias ou no seu covil, fosse um javali, um urso ou outra qualquer. Contudo, durante uma montaria em que não encontrava caça, entrou numa caverna e matou um ónagro - subsespécie de burro selvagem encontradas especialmente nas zonas dessérticas da Ásia- que protegia as suas crias. Argimiro ouviu uma voz misteriosa que lhe disse que pelas suas acções ficaria desonrado, mas ele não fez caso. Pouco tempo depois, o conde partiu para a guerra e deixou a sua esposa no castelo. Quando regressou, descobriu que a bela condessa se encontrava às escondidas com Astrigildo o Alvo, um nobre gardingo que todas as noites era guiado por um ónagro ao seu encontro. Enraivecido, matou-os, ouviu de seguida a mesma misteriosa voz "Por ti ficaram órfãos os filhinhos do ónagro, mas por via do ónagro ficaste, oh conde, desonrado. Foste cru com as pobres feras: Deus acaba de vingá-las." Desde essa altura as almas da condessa e do gardingo apareciam em Biscaia, ela de branco e vermelho vestida, enquanto em cima de uma pedra cantava, ele por perto, na forma de um ónagro.]

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Foto Michael Oppermann

Na serra, D. Inigo, estava acompanhado do seu mastim favorito, Tárik, quando encontrou a Dama de Pé-de-Cabra, sua mãe, que resolveu ajudar o filho, com a condição de este aguarda um ano pelo término da penitência de seu pai e a promessa de lhe dar um ónagro de seu nome Pardalo, enquanto lhe lançava um feitiço para o adormecer profundamente por mais de um ano. Quando o cavaleiro acordou, sem noção de quanto tempo havia passado, partiu de imediato com a criatura até Toledo. Estava uma negra e terrível tempestade, atravessaram as muralhas da cidade e entraram na prisão, onde com um coice o ónagro abriu a cela. Pai e filho cavalgaram em fuga, o mais rápido que conseguiam, no caminho, encontraram um cruzeiro de pedra que fez o animal parar. A voz da Dama de Pé-de-Cabra, fez-se ouvir e instruiu o ónagro a evitar a cruz. Reconhecendo a voz, ao fim de tantos anos e sem saber da aliança entre o filho e a mãe, D. Diogo exclamou "Santo Nome de Cristo!" e benzeu-se, o que fez com que o ónagro os sacudisse da cela, a terra estremecesse e abrisse, tornando visível o fogo do Inferno, que engoliu o animal nas suas profundezas. Com tamanho sustos, os dois desmaiaram.  Quando de novo voltaram a si, nenhum vestígio restava do que se passou naqueles instantes, os dois caminharam até Nustúrio, a aldeia mais próxima, onde os receberam e cuidaram no castelo de D. From.

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D. Diogo, nos restantes anos que ainda viveu, todos os dias ia à missa e todas as semanas se confessava. 

D. Inigio, morreu de velhice, nunca mais entrou na igreja e crê-se que tinha um pacto com o Diabo, pois, apartir de então, não havia batalha que não vencesse.

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Após alguma pesquisa, a veracidade desta lenda, pode, parte dela, ser verídica, mas vamos por partes.

A opção primeira é, o nosso D. Diogo desta lenda era nada mais nada menos que Diego Lopez I de Haro "o Branco" (1075-1124), foi membro da Casa de Haro e o terceiro Senhor da Biscaia (1903-1124). Filho de Lope Iñiguez e de Tecla Dias. Casou com Maria Sanches e teve três filhos deste matrimónio: Lope Díaz I de Haro, 4º Senhor de Biscaia, Sancho Díaz, tenente de Treviana e Gil Díaz. Mas segundo a lenda, nenhum destes poderia ser D. Inigo, pois este morreria de velhice e não em batalha, o que aconteceu aos três filhos deste casamento. A única veracidade desta lenda é que D. Diogo foi castigado pelo seu envolvimento com a misteriosa dama, o que me leva a crer que D. Diogo deve ter traído a esposa Maria Sanches pois D.Inigio seria um filho bastardo.

A segunda opção é a lenda ser sobre Lope Díaz I de Haro 4º Senhor de Biscaia, que do seu casamento com a condessa Aldonça Rodrigues, teve onze filhos, mas diferente de seu pai, teve três filhos bastardos: Lope Lopes de Haro, Sancho Lopes de Haro e Martim Lopes de Haro.

Na terceira opção, Iñigo Lopes, foi o primeiro senhor de Biscaia, sendo o sucedor de seu pai Lope Velázquez (o nosso D. Diogo), entendo o que dizem sobre o pacto com o Diabo, pois Iñigo tem muitos títulos e histórias dos quais se pode gabar. Não existe registo de mãe, nem de irmãs, apenas de seu pai e seu tio. Por isso se me perguntam a mim, esta lenda sim, pode ter um pingo de verdade, talvez romantizada para esconder as atrocidades praticadas naquela época.

 

Boas leituras

 

15
Nov23

Lenda da Moura Salúquia

Bri Atano

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Caros leitores, para a lenda de hoje vamos voar até a uma linda cidade chamada Moura. Não sei quantos conhecem, eu pessoalmente desconhecia, é uma cidade raiana portuguesa, pertencente ao distrito de Beja, inserida na região do Alentejo e na sub-região do Baixo Alentejo tem 958,46 km² de área e 13 259 habitantes (2021).

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Foto por Acácio Costa 

A existência de duas nascentes de água permanente no interior do castelo, que ainda hoje abastecem duas fontes (Três Bicas e Santa Comba), permitiu que surgissem, na transição do século XIX para o século XX, uma unidade termal e a fábrica da Água Castello, unidade fabril que se manteve no espaço do castelo até ao final da década de 30. (fonte Wikipédia)

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Foto publicada pela Revive e Lusa

Foi em Moura, que também se construiu o primeiro convento da Ordem das Carmelitas na Península Ibérica - o Convento do Carmo - e deste convento saíram os monges que fundaram o Convento do Carmo, em Lisboa. Funcionou como antigo hospital local, e actualmente está a ser requalificado para se tornar numa instalação hoteleira, devolvendo assim uma nova vida a um edíficio histórico degradado e que segundo o presidente da Câmara de Moura, Álvaro Azedo, argumenta: "Vai ter outro uso, é certo, mas as pessoas sentem-no como seu, porque muitos de nós nascemos naquele convento, e este é o investimento certo para lhe dar uma nova alma”

Feitas as apresentações a esta linda cidade, vamos então viajar para mais uma lenda:

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Oleo sobre tela Lefrontier

Era uma vez, numa terra de seu nome Al-Manijah, outrora Aruci Novum, uma princesa de seu nome Salúquia, herdeira de Abu-Hassan e governadora da cidade, cujo amor da sua vida era o alcaide mouro de Aroche, Bráfama. Um dia antes do se matrimónio, Bráfama, com a sua comitiva, dirigiu-se para Al-Manijah que ficava apenas a dez légua de distância. Porém todo o território alentejano a norte e a oeste, já estava sobre poder cristão, tornando-se assim numa jornada perigosa. 

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D. Afonso Henriques, encarrega dois fidalgos, os irmãos Álvaro e Pedro Rodrigues, de conquistarem a cidade de Al-Manijah. Informados dos preparativos matrimoniais que aí se desenrolavam, os irmãos planearam uma emboscada num olival perto da povoação. Atacados de surpresa pelos cavaleiros cristãos, a comitiva de Aroche foi facilmente derrotada e Bráfama foi morto.

Disfarçados com as veste dos representantos muçulmanos, os fidalgos cristãos dirigiram-se para a cidade, onde Salúquia aguardava o seu noivo, no alto da torra do castelo. Quando viu um grupo de cavaleiros que julgou ser Islâmicos, a princesa ordenou que se abrissem as portas da fortificação.  Imediatamente após entrarem na muralha, os cristãos lançaram-se sobre os defensores da cidade e conquistaram o castelo.

Salúquia, apercebeu-se do erro que cometeu e amargurada e ferida pela certeza da morte de seu noivo Bráfama, tomou as chaves da cidade e atirou-se da torre onde se encontrava.

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Foto da capa de “Saluquia - A Lenda de Moura em Banda Desenhada”

Comovidos pela história de amor que os sobreviventes islâmicos lhes contaram, os irmãos Rodrigues teriam renomeado a cidade para Terra da Moura Salúquia. O tempo encarregar-se-ia de transformar esta designação para Terra da Moura, até que evoluíu para a actual forma de Moura.

A uma torre de taipa do Castelo de Moura ainda hoje se chama a Torre de Salúquia, e a um olival nas proximidades de Moura, aquele onde supostamente teriam sido emboscados Bráfama e a sua comitiva, o povo chama Bráfama de Aroche. Nas armas da cidade figura, uma moura morta no chão, com uma torre em segundo plano, numa alusão à lenda da Moura Salúquia.

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Foto por Silvana Regina

20
Out23

Lenda do Pátio do Carrasco

Bri Atano

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Hoje vamos falar sobre a capital, Lisboa, e sobre uma das muitas lendas que assombram a cidade. Situado em frente ao Largo do Limoeiro, junto à antiga cadeia, está o Pátio do Carrasco, também conhecido como "O Negro", vamos falar um pouco sobre Luís dos Santos e mergulhar em mais uma lenda assustadora de Portugal.

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No ano de 1806, numa família honrada e muito respeitada de Capeludos, nasceu um bebé de seu nome Luís António Alves dos Santos, seu pai Inácio Alves dos Santos e sua mãe Joana Bernarda Pimenta, garantiram que o seu filho tinha uma infância feliz junto da sua restante família. 

Perto de 1822, Luís teria entre 16/17 anos, quando partiu para Lisboa, alistando-se na vida militar, que foi quando a sua vida começou a não correr tão bem, pois rapidamente notou que não estava enquadrado sobre a realidade que se vivia na capital e ficando acamarado com recrutas pouco atinados, não o ajudou. Certo dia aconteceu algo que mudaria a sua vida para sempre, um assassinato, durante um assalto a uma casa de gente rica no Campo Grande. Junto com alguns colegas, tornou-se refratário e regressou à sua província transmontana, vivendo como "fora-de-lei". Foi preso em Vila Pouca de Aguiar, onde respondeu por 18 crimes que lhe foram atribuídos, mas que ele sempre negou. Confessou sim, que matara por duas vezes, mas em legítima defesa.

Entre perseguições por parte de absolutistas e alistamento na cavalaria, ainda se viu misturados em "gangs", permaneceu numa situação de marginalidade, procurando sempre iludir as autoridades, até ser capturado de vez pela polícia, já com mais de 30 anos. (Existe um romance histórico e biográfico, escrito por Leite Bastos, de seu nome "O Último Carrasco", que detalha a vida de Luís dos Santos e que recomendo a leitura)

Em Junho de 1845, como refere Maria João Medeiros, em "Alamanaque do crime português" - 2021, que chegou a proposta: passar a matar (legalmente) para não ser morto. Terá sido a sua esposa a convencê-lo  a se tornar, Executor de Alta Justiça - designação do carrasco real, uma função maldita e mal vista por todos, mas que Luís Alves aceita a fim de lhe ver comutada a pena de morte. 

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O apelido "O Negro", teve a ver com a sua pose austera, caminhando devagar e firme em direcção ao cadafalso, onde os criminosos e fora-de-lei, eram sentenciados e mortos à vista de todos numa praça pública. O carrasco vestia preto, de cima a baixo, um capuz igualmente preto que lhe tapava toda a cabeça, apenas um orifício para ver o que o rodeava. Os populares que iam assistir à morte por enforcamento ou por lâmina afiada começavam a afastar-se à sua passagem, reassumindo o seu lugar, entre o curioso e o receoso. Mesmo sem nunca ter executado ninguém, "O Negro" era fantasmagórico, tenebroso. 

Como militar, Luís Alves, sempre foi considerado um homem valente, com três condecorações atribuídas, antes de se tornar refratário e de tornar a sua vida num inferno conturbado que o fez morrer só, repudiado pela família, esquecido, triste, pobre e doente de epilepsia e asma, a 18 de Agosto de 1873, num bairro em Vila Pouca de Aguiar e não se sabe ao certo, nem onde é a casa de família, nem onde se encontra sepultado.

 

Vamos agora à lenda:

Artur Pastor - Pátio do Carrasco

Imagem de Artur Pastor

O Pátio do Carrasco situa-se em Lisboa, hoje bastante degradado, mas foi aqui que terá vivido temporariamente Luís António Alves dos Santos, conhecido como “o Negro”, que foi o último carrasco de Portugal. 

A lenda conta que existe um túnel subterrâneo, que ia desde o Pátio do Carrasco à Prisão do Limoeiro, mesmo ao lado, e que seria usado para que o carrasco pudesse mais facilmente ir executar os seus deveres. A lenda conta também que, no local onde estaria essa passagem, ainda hoje se ouvem gritos, que seriam do próprio Luís, atormentado pelas mortes que causou.

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Imagem por Eduardo Portugal

É aqui que esta lenda se torna difícil de defender e entender: é possível que Luís Alves nunca tenha executado ninguém. Dizem que quando foi encarregue de o fazer, em Tavira, deu ao seu imediato o dinheiro que tinha consigo, para que o substituísse. Na época os carrascos usavam capuz, era possível trocarem de lugar sem que ninguém se apercebesse.

Será que Luís grita atormentado pelas mortes que causou na juventude? O carrasco lutou ao lado dos absolutistas, no século XIX, e confessou ter matado dois homens em legítima defesa. 

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Imagem por Tozé Fonseca

06
Out23

Lenda da Casa Amarela de Ovar

Bri Atano

Entramos oficialmente no mês onde se faz homenagem aos mortos, muitos chamam de Halloween outros de Noite das Bruxas. Vou tentar então trazer um pouco de lendas assustadoras, começando por esta que acontece na linda cidade de Ovar, que para quem não conhece, é uma cidade portuguesa que se situa no município de Aveiro, sendo a única população que possui este vocábulo em todo Portugal ou até no estrangeiro. 

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A primeira referência, conhecida, a este nome, é feita numa carta de 12 de Junho de 922, de Ordonho II da Galiza e Leão, na qual são doados ao Mosteiro de Crestuma "bens consideráveis, entre os quais se contam a igreja de S. Donato e a igreja de S. João". No documento, este local é referido como porto de obal, nome que faz referência ao então rio Obal (ou Obar), atual rio Cáster.

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(foto por João Elvas)

Agora que ficámos a conhecer melhor esta bela cidade, que com certeza tem mais lendas, vamos falar de uma que a maiorida da população Ovarense ou Vareiros conhecem, vamos mergulhar na lenda da Casa Amarela.

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Era uma vez, numa linda casa amarela, uma família rica que possuía uma filha única que, quando crescesse, seria a herdeira da família, que começou, eventualmente, a namorar com um rapaz pobre. O pai da rapariga era contra o namoro entre os dois e num acto de raiva atirou-os para um poço que se situava no jardim e deixou-os morrer lá. Dias se passaram e o pai foi encontrado enforcado no poço. A partir daí, é dito que as três entidades assombram a casa.

Várias pessoas que lá entraram ficaram amedrontadas: já tentaram demolir a casa ou restaurá-la, mas assim que o tentavam fazer, as máquinas desligavam-se do nada, ouviam-se gritos e via-se sangue a escorrer pelas paredes. Também tentaram colocar vidros nas janelas da casa, mas rapidamente, estes partiam-se misteriosamente. Graças a esses acontecimentos estranhos, os engenheiros não voltaram à casa.

Rumores dizem que houve também uma família de ciganos que decidiu morar na casa amarela, que entretanto fugiu devido às assombrações presentes.

Outra versão desta lenda, é que terá pertencido a um empresário que terá perdido a casa por causa de dívidas e ter-se-á suicidado lá dentro, jurando que “mais ninguém iria ficar com a casa”. O edifício está abandonado há décadas e consta que nem os residentes mais antigos da rua se lembram de a ver habitada por alguém. 

 

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Tentei cruzar informação de novo com pessoas ricas de Ovar, que lá terão habitado, dois nomes reçaltam, 1º e 2º Viscondes de Ovar, mas apenas se sabe que foram soldados um deles liberal, empresários que tiveram a sua morte antes de 1950 e alguns cuja informação não se encontra disponível em lado nenhum, no entanto existe dois que têm a sua morte perto da data, um deles em 1968 e o outro a 1959, invalidando também a morte por enforcamento, e nada mais se encontra datado apartir de 1800, visto que a ordem de construção da casa foi dada em 1952, nunca chegada a ser acabada. Deixando apenas a questão, que família notavél morava em Ovar por essa altura, sem o conhecimento do concelho? Será que a casa não terá sido acabada por falta de acordo ou ilegalidade? 

O que nos resta é apenas uma lenda, que podemos escolher acreditar ou não, mas demasiados relatos sugerem de facto que algo se passa nesta casa, mas a sua história, apenas as paredes o sabem.

27
Set23

Lenda da Torre da Princesa

Bri Atano

Vamos hoje viajar até Bragança, uma linda cidade situada a Norte de Portugal, faz fronteira com Espanha e hospeda a 2ª maior área protegida do país - Parque de Montesinho - assim como mais de cinco séculos de tradições sendo a mais conhecida, talvez, os Caretos. Mas não é sobre essa lenda, não hoje, que iremos falar, mas sim da Torre mais famosa do Castelo de Bragança, essa mesmo. Apresento-vos então a Lenda da Torre da Princesa.

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Era uma vez, há muito tempo, na povoação de Bemquerença, onde existia um castelo que albergava uma bela princesa orfã, que ali vivia com o seu tio, o senhor do castelo.

A princesa apaixonou-se por um nobre, valoroso e jovem cavaleiro, porém carente de recursos. Por esse motivo, o jovem partiu da aldeia numa longa jornada em busca de fortuna, prometendo retornar apenas quando se achasse digno de pedir a sua mão.

Anos se passaram, a jovem recusou todos os seus pretendentes esperando por o seu nobre cavaleiro, até que o seu tio, impaciente, prometeu-a a um amigo, forçando-a ao compromisso. Ao ser apresentada ao candidato do tio, a jovem confessou-lhe que o seu coração pertencia a outro homem, cujo retorno aguardava há anos.

A revelação enfureceu o tio, que decidiu, nessa mesma noite, se disfarçar como um fantasma e, penetrando por uma das duas portas dos aposentos da princesa, simulando ser o fantasma do jovem ausente, afirmou-lhe com voz lúgubre, que ela estava condenada para sempre à danação, caso não aceitasse o casamento com o novo pretendente. Prestes a obter um juramento por Cristo por parte da princesa, milagrosamente abriu-se a outra porta e, apesar de ser noite, um raio de sol penetrou nos aposentos, desmascarando o tio impostor.

Daí em diante, a princesa passou a viver recolhida na torre que hoje leva o seu nome, sem nunca mais ser obrigada a quebrar a sua promessa, e as duas portas passaram a ser conhecidas como Porta da Traição e Porta do Sol, respectivamente.

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Como não encontrei em registos, o que aconteceu à princesa orfã, resolvi tentar pesquisar um pouco sobre a monarquia portuguesa e algo me leva a crer que terá sido durante a Dinastia de Avis ou Dinastia Joanina. A Torre terá sido construída perto de 1438/39, aqui não sei o quão certa estarei mas os senhores do castelo seriam ou D. Afonso (1º Duque de Brangança) que esteve no poder até meados de 1433, onde terá sido substituído por D. Duarte I entre 1433-1438 e posteriormente por D. Afonso V, 1438-1481.

Mas é aqui que tudo se complica um pouco, principalmente porque quem estaria no poder seria D. Afonso V devido ao falecimento de seu pai e a torre pode apenas ter servido para passar uns dias ou ser mesmo um local de repouso e passagem, e temos duas opções:   pes_392155.jpg  800px-Hans_Burgkmair_d._Ä._006.jpg

No caso 1, aquando a morte de seu pai D. Duarte I por volta de 1438, D. Leonor teria sido deixada à responsabilidade de seus tios paternos, D. Pedro e D. Isabel de Borgonha. D. Leonor cresceu na corte, em Lisboa, e dos seus últimos anos em Portugal pouco se conhece. Especula-se em algumas fontes quanto os amores que um certo jovem fidalgo da altura lhe terá tido no fim da década de 40 daquela centúria, quando D. Leonor contava com 16 anos e o seu contrato de casamento era já negociado. Teria o jovem acesso à Infanta por intermédio de D. Guiomar de Castro, de quem era primo co-sobrinho pelo lado materno. Conta-se que passou a Itália na armada que levou a Infanta D. Leonor e que, após o casamento desta, abraçou a vida religiosa; segundo as mesmas fontes tê-lo-á feito por desgosto de ver a sua amada casada com outrem. Tomou ordens como Frei Amadeu e ficou conhecido para a história como Beato Amadeu.

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No caso 2, consta-se que D. Joana de Trastâmara, seria o fruto de uma traição entre D. Joana de Portugal e Beltrán de La Cueva, tornando-a assim filha ilegítima de D. Henrique IV de Castela e com isso vieram muitas guerras civis, mas também a procura de um marido para a filha, para esta não perder os seus direitos que estavam a ser ameaçados. Depois de várias hesitações diplomáticas, D. Joana acabou prometida em casamento ao seu tio, o Rei Cavaleiro, D. Afonso V de Portugal, que tomou como sua empresa de cavalaria defender os direitos da sua inocente e jovem sobrinha. Para este casamento foi necessária uma dispensa papal, dada a próxima consanguinidade entre os noivos. D. Afonso jurou defender os direitos da esposa e, por conseguinte, os seus próprios, ao trono de Castela. Existem rumores que D. Joana pode mesmo ser filha de D. Henrique IV de Castela, mas sem os restos mortais que foram perdidos no terramoto de Lisboa nunca se poderá ter o ADN para confirmar, apenas nos restam especulações sendo uma delas os factos que o historiador António Júnior, apresenta, facto após facto, argumento após argumento, documentando-se em fontes históricas bem identificadas, a tese de que D. Joana de Portugal terá sido inseminada artificialmente, ou pelo menos de forma assistida, com sémen de D. Henrique IV de Castela, através de uma “mestria” conduzida provavelmente pelo físico judeu de nome Yusef ben Yahia. 

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Mas de novo tudo isto são especulações pois era comum a recusa e as negociações de casamentos e apenas uma visão diferente sobre a Lenda da Torre da Princesa.

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